BUSINESS – Vai uma carona aí?

Fonte: Portal PEGN

Oferecer transporte para a clientela voltar para casa pode trazer problemas judiciais a bares e restaurantes.

Apesar da chiadeira provocada pela Lei Seca, que entrou em vigor no último dia 20 de junho, a norma parece mesmo ter vindo para ficar (a constitucionalidade da lei deve ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal em agosto). Como agora a legislação estabelece tolerância zero para o consumo de álcool por parte dos motoristas – e a multa é bem salgada: quase R$ 1.000 -, donos de bares e restaurantes estão sentindo o gosto amargo da medida, que reduziu drasticamente a venda de bebidas. Para minimizar a queda no faturamento, vários empresários do setor estão oferecendo alternativas de transporte para levar o cliente para casa e, assim, deixá-lo livre para consumir à vontade.

O que num primeiro momento pode soar como solução, na verdade representa um risco que muitos desconhecem. Isso porque quem oferece carona à clientela precisa tomar alguns cuidados para não ser responsabilizado por eventuais problemas como acidentes ou assaltos. Segundo David Rechulski, sócio do escritório Rechulski e Ferraro Advogados, é necessário checar se os motoristas contratados ou terceirizados têm habilitação para atividade profissional, se os carros usados possuem seguro de responsabilidade civil e se todos os passageiros estão utilizando o cinto de segurança. “As regras devem estar muito claras, de preferência em um mural próximo à entrada do estabelecimento e na contracapa do cardápio”, afirma. Ele recomenda ainda incluir a área ou quilometragem coberta pelo serviço, esclarecer que o transporte é destinado a quem ingeriu bebida alcoólica com moderação (não para clientes alcoolizados), que o passageiro deve assinar um termo de ciência dos riscos envolvidos (como acidentes ou assaltos) e que a iniciativa se trata de opção do empreendimento, podendo ser suspensa sem aviso.
A lição foi aprendida logo pela empresária paulista Lilian Gonçalves. No dia seguinte à publicação da lei, ela mandou adesivar dois carros com a marca Biroska – que abrange suas cinco casas – para levar gratuitamente os consumidores de volta ao lar. Ela conta que no primeiro fim de semana um cliente tomou uma única caipirinha e solicitou a carona. O destino? Campinas, cidade a cerca de 100 quilômetros de São Paulo. “Foi duro convencê-lo de que não seria possível. Depois disso, deixamos claro que a cortesia cobre uma distância máxima de dez quilômetros”, diz Lilian.
Precavida, a empreendedora não aposta apenas no transporte para recuperar o faturamento perdido. Ela também providenciou bafômetros para os boêmios fazerem o teste antes de ir para casa. “Realizamos ainda uma campanha com panfletos para atrair a clientela que pode vir a pé”, diz. Lilian afirma que a queda na receita chegou a 40% na primeira semana, mas agora o movimento já se normalizou.
Rechulski também alerta para o risco de a empresa ser acusada de repassar o custo do transporte ao consumidor. “Ele tem de ser apresentado como uma cortesia, não um serviço.” O advogado ressalta ainda que o benefício jamais deve ser usado como propaganda. Foi justamente essa a postura do restaurante Tizziano, no Rio de Janeiro. Com discrição, a ação adotada pelo estabelecimento aposta na oferta de transporte gratuito, mas sem divulgá-la externamente. O proprietário Luiz Carlos Caumo tem feito uma média de 12 viagens por dia nos fins de semana e quatro nos dias úteis para levar consumidores de volta para casa. Apesar de ter registrado quase 15% de queda no faturamento, ele aprova a lei. “Se não beneficiasse a sociedade, eu questionaria”, afirma.
Já a casa noturna CB Bar, de São Paulo, espera recuperar parte da receita reforçando o cardápio com uma série de porções e petiscos. A casa também se preocupou com a questão do transporte, mas preferiu abordá-la de forma inversa: quem for de táxi, ganha uma cerveja. “A idéia é mostrar que a pessoa pode beber, só não pode dirigir depois”, afirma Raul Fiuza, gerente comercial do empreendimento.

29/08/2008

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