FINANÇAS – O que o circo de Soleil tem a ver com o juro?

Fonte: Redação de AMANHÃ

Técnico do BC aposta no cooperativismo como opção para crédito de baixo custo e cita o caso do circo canadense como exemplo da relação de confiança que o sistema estabelece com os associados.

Se já contavam com a simpatia do Banco Central, que nos últimos anos rompeu algumas amarras legais que as impediam de crescer, as cooperativas de crédito encontram agora, em plena crise, ventos ainda mais favoráveis. A nova investida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra os exageros do spread (diferença entre o valor pago pelos bancos para captar o recurso e o juro que cobram para emprestá-lo ao tomador de crédito) dá mote a algumas comparações. Nos cálculos da Organização das Cooperativas Brasileiras, o juro praticado pelas cooperativas de crédito ficou 2,61% abaixo da taxa média mensal cobrada pelos bancos. A inadimplência, principal risco alegado pelos bancos para manter o crédito escasso e caro, é baixa no cooperativismo de crédito: em 2008, não passou de 1,83%.

Com estes e alguns outros trunfos – estão isentas de alguns tributos e também não precisam recolher compulsoriamente ao Banco Central parte dos recursos que captam, como os bancos -, as 1.113 cooperativas de crédito já reúnem 3,2 milhões de associados e a previsão da OCB é de que até o final de 2009 este número já esteja em 3,8 milhões de brasileiros. A verdade, porém, é que o cooperativismo de crédito precisará sustentar altas taxas de crescimento para “fazer cócegas” nos grandes bancos, como revela, nesta entrevista a AMANHÃ, o adjunto do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, Abelardo Sobrinho. Mesmo assim, pondera, em cidades pequenas e de porte médio os grandes bancos enfrentarão uma competição “bastante acirrada”.

E se o cooperativismo de crédito precisava de um ícone para mostrar sua diferença em relação aos bancos tradicionais, Abelardo aponta o Cirque du Soleil, um caso que ele conheceu em viagem de estudos pelo Canadá – país no qual a sensação produzida pelas cooperativas na indústria bancária não é, propriamente, de cócegas.

Com a crise e a aversão dos bancos ao risco, o cooperativismo de crédito adquire um papel ainda mais importante?

Independentemente da crise, o cooperativismo de crédito, se bem organizado, é uma resposta adequada e bastante às demandas do crédito. Por quê? Porque o sistema cooperativista é limitado em seu corpo social. Portanto, sabe das necessidades do seu corpo social. E é este próprio corpo social que oferece o funding para a cooperativa realizar empréstimos. Mas é claro que há limitações.

Quais são as limitações mais importantes?

Em primeiro lugar, o cooperativismo de crédito responde hoje por apenas 2% do volume total de recursos emprestados no âmbito do sistema financeiro. Em outros países, esta participação é bem maior. Na Alemanha, é de 25%. Em Quebec, lá no Canadá, chega a 50%, seguindo o modelo Desjardins.

E nos Estados Unidos, sempre uma referência em mercado financeiro, qual é a fatia das cooperativas de crédito?

É menor. Mas é importante, também – está na casa dos dois dígitos.

No Brasil, esta participação vem crescendo, não?

O cooperativismo de crédito foi bastante incrementado nos últimos seis anos, com a decisão do Banco Central de permitir que, em vez de se restringir a categorias organizadas, as cooperativas pudessem usufruir da livre admissão de associados. Isso visou exatamente a permitir que elas pudessem ter mais fluxo de recursos e concorrer mais efetivamente com o sistema bancário.

E como a crise interfere neste cenário?

A crise atinge a economia como um todo, na medida em que provoca redução de demanda, queda de preços… Mas ainda assim o cooperativismo dá boa resposta. Vejamos, qual é a origem desta crise? É a especulação, a ganância, a criação de vários instrumentos de financiamento que não correspondem a dinheiro físico e sim a uma mera transferência de responsabilidades… O cooperativismo não vive disso. O cooperativismo de crédito vive basicamente de ter os recursos e emprestá-los. Não veremos uma cooperativa pegando este dinheiro no seu caixa para buscar uma aventura no mercado, uma aplicação de maior rentabilidade.

Até onde pode chegar o crescimento do cooperativismo de crédito, partindo desta pequena participação que hoje anda ao redor de 2% do mercado?

Sem dúvida, o cooperativismo de crédito é muito pequeno em relação ao seu potencial. O sistema vem sendo estimulado a crescer nos últimos anos, mas ainda não atingiu um crescimento capaz de fazer cócegas no sistema bancário. Claro que há fatores culturais, ligados a tradição, a princípios de uma cooperativa. O cooperativismo difere em vários aspectos do sistema bancário tradicional.

O potencial de crescimento das cooperativas de crédito é maior nas pequenas cidades, onde os bancos não atuam tão fortemente?

Eu vou justamente nesta linha. Os grandes centros, onde se concentra o chamado crédito urbano, já são ocupados pelo sistema bancário tradicional. Nestas cidades de maior porte, basicamente as capitais, a dificuldade das cooperativas é maior porque, por força de lei, nestes lugares elas são limitadas, só podem representar categorias profissionais ou grupos de pessoas de determinada empresa ou perfil. Então, elas enfrentam uma limitação de quadro social. Eu explico: é que a norma legal permitiu às cooperativas a livre admissão de associados somente em regiões contínuas – como áreas metropolitanas – que tenham menos de 2 milhões de habitantes.

Em resumo, a lei remete as cooperativas de crédito para as cidades menores?

Sim. Nos grandes centros, onde você tem municípios interligados somando uma população de menos de 2 milhões de habitantes, elas ainda têm alguma chance. Mas quando extrapolamos esta análise para o interior, aí, sim, você tem uma concorrência muito forte das cooperativas de crédito com os bancos. Elas demonstram uma capacidade significativa de influenciar o mercado local e, inclusive, os custos financeiros da região. Se você examinar o sul do país verá que praticamente 90% dos municípios têm presença cooperativista. Existem municípios em que a cooperativa fez a diferença, respondendo por 70 ou 80% dos recursos movimentados naquela comunidade. E há municípios em que este percentual é de 100%. Ali, só existe a cooperativa de crédito, e o crescimento do sistema é muito forte. Agora, nos centros maiores, eu concordo: a concorrência com os bancos é bem mais difícil.

Nas cidades nem tão grandes nem tão pequenas teremos uma batalha entre cooperativas de crédito e bancos?

Claro que nessas cidades de porte médio, como Londrina, Joinville, por exemplo, haverá… eu não diria “batalha”, mas uma concorrência. E uma concorrência bastante acirrada. Inclusive, eu diria, com influência direta na composição da taxa de juros. E vamos ver as cooperativas de crédito puxando a taxa para baixo. A questão para o cooperativismo, ainda – e isso é uma percepção minha -, é que o cooperativismo não oferece todos os produtos típicos do banco. Cooperativa não oferece câmbio, por exemplo. E esse é um produto típico do setor de bancos.

Mas não oferece porque a legislação não permite?

É, a legislação não permite uma carteira de câmbio nas cooperativas. Mas isso poderia ser feito por intermédio do banco do sistema. Hoje, nós temos dois sistemas de cooperativismo de crédito que têm banco. O Sicredi e o Sicoob. O Bansicredi tem a carteira de câmbio. O Sicoob não tem – ainda. Além do câmbio, há uma gama de produtos financeiros que podem ser oferecidos aos associados, como financiamento de longo prazo, capital de giro…. Neste campo o cooperativismo ainda está bastante limitado.

Que referências o cooperativismo de crédito brasileiro deve seguir, nesta perspectiva?

Eu estive em Quebec , no Canadá, onde o cooperativismo detêm mais de 50% do mercado financeiro. Veja o caso do Circo de Soleil, que é da região de Montreal. Eu estive lá e conheço bem esta história. Quando foi montar o Cirque du Solil, o seu idealizador, que era um daqueles comedores de fogo, foi procurar o sistema bancário para dizer “Olha, financia este projeto”. O que ele ouviu foi alguma coisa como “Acha que sou maluco, rapaz? Vou botar o meu dinheiro aí no fogo, pra vocês comerem? Que história é essa?”. Resumindo, o banco não financiou. Ele foi buscar apoio no sistema cooperativista da região, que começou a apoiá-lo com pequenos recursos. E foi o modo como ele conseguiu montar o circo. Veio o sucesso – porque de fato há empreendedores que só precisam, mesmo, de recursos… O circo cresceu e o sistema cooperativista da região já não tinha mais capacidade operacional para suprir todas as necessidades de financiamento do Circo de Soleil. Então, o que o Soleil passou a fazer? Passou a fazer uma espécie de leilão com os bancos. “Olhem, estamos precisando de US$ 1 milhão. Vocês nos oferecem a quanto?”.

O poder de barganha mudou de lado…

Exatamente. O circo passou a ter o poder de dizer assim: “Eu quero um milhão”, porque o negócio virou um sucesso e os bancos viam o empreendimento com outros olhos. Mas mesmo na nova fase o Circo de Soleil só recorria ao sistema bancário quando o sistema cooperativista declarava algo como “Olha, nesse nível nós não temos os recursos suficientes para bancar o seu projeto.”.

A preferência deles sempre foi pelo sistema cooperativista. É uma história lá de fora, mas se nós olharmos determinadas regiões do Brasil veremos que também ocorre essa concorrência das cooperativas, esta capacidade de impor uma puxada de juros para baixo…. Há pessoas que operam exclusivamente com o sistema cooperativista. Assim como há pessoas que não conhecem bem o sistema cooperativista e entram porque acham que se trata de crédito fácil… Tem de tudo aí.

Um detalhe que chama a atenção no estudo que você realizou com Marden Soares é o alerta de que o associado ainda sabe pouco sobre as possibilidades que a cooperativa oferece a ele.

Exatamente. Esse é o ponto crítico: o associado não conhece seus direitos e obrigações. O nível de formação ainda é bastante baixo. Esse é um dos grandes desafios do sistema cooperativista. Se você pegar o total de associados do sistema e fizer uma peneira para verificar quais são aqueles que efetivamente utilizam os serviços da cooperativa, verá que este número não chega à metade, é um coeficiente baixíssimo. Você tem aquilo que a gente chama de associados inativos. São associados que não operam com cooperativa, que ficam aguardando apenas o final do ano para receber o retorno a partir das sobras (cooperativas não visam ao lucro; seus resultados são “sobras”).

O governo vem insistindo na redução do spread bancário por considerar que o juro cobrado pelo banco para emprestar é muito superior ao custo que a instituição tem para captar este recurso no mercado. Até que ponto as cooperativas de crédito conseguem praticar juros mais baixos que os bancos tradicionais?

Há uma diferença, sim. O spread é menor nas cooperativas de crédito. As taxas de juros que elas praticam ficam abaixo do sistema bancário tradicional. E as cooperativas têm um custo de captação mais alto que os bancos por força da inexistência de outros produtos a oferecer aos clientes. Os bancos, ao contrário, operam com um portfólio mais amplo: seguros, consórcios… O banco pode até trabalhar… não direi com prejuízo, mas com custo zero em um determinado produto porque consegue atrair o cliente para um pacote de serviços e, no conjunto, a instituição cobre seus custos e tem resultados. A cooperativa de crédito não tem esta margem, embora disponha de algumas isenções tributárias.

04/02/2009

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