ENTREVISTAS QUE INSPIRAM – Gabriel Gomes (ShootThe Shit)

“Hoje eu não digo que sou empreendedor social, eu sou um empreendedor que tenta fazer as coisas de forma diferente pensando o social. Sei que é um pouco romântico, mas romance é bom.”

Gabriel Gomes não é uma pessoa que fica confortável trabalhando em só uma coisa, vivendo em só um mundo. Desde os tempos de graduação era assim, seu TCC foi sobre projetos paralelos e esse é um assunto muito presente em sua vida. No início de nosso papo, Gabriel explicou o que diferencia um projeto paralelo de um hobbie. Ele descreve que hobbies são meramente atividades de passatempo; prazerosas, mas que não carregam em si uma grande expectativa. Já projetos paralelos têm uma carga de envolvimento bem maior e geram perspectivas futuras. Mesmo assim, a diversão também faz parte do projeto paralelo, que muitas vezes são válvulas de escape para a criatividade que não pode ser desenvolvida no trabalho.

“Hobbie tu não tem tanta pretensão de fazer virar alguma coisa maior, e um projeto paralelo tu tem uma intenção ali… uma frequência, um interesse em fazer aquilo virar algo maior.”

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Sócios da Shoot The Shit

E o Shoot the Shit (STS) nasceu assim, como um projeto paralelo, sem a pretensão de ser um negócio. Em 2010 ele era apenas um espaço onde seus fundadores originais – Gabriel Gomes, Luciano Braga e o Giovani Groff – podiam tirar suas ideias do papel. Os publicitários queriam um lugar mais permissivo para expressar a sua criatividade e sair do piloto automático que percebiam ocorrendo em muitas atividades profissionais. No entanto em 2011 as iniciativas do grupo já ganhavam mídia espontânea com abrangência nacional. Projetos como “Que Ônibus passa Aqui” e “Porto Alegre, paraíso do golf” tiveram grande repercussão nas redes sociais, fato este que contribuiu para que a Shoot The Shit conquistasse espaços também na mídia tradicional, como entrevistas em telejornais. Nesse processo de reconhecimento, o que era somente um espaço se transformou em um coletivo de intervenção urbana, afinal todos os projetos já tinham a cidade como seu canvas.

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Projeto “Que ônibus passa aqui?”

“O Shoot The Shit começou como um espaço para tirar ideias do papel e se transformou num coletivo de intervenção urbana porque todos os projetos usavam a cidade como plataforma. No final de 2014 identificamos que podia ser uma oportunidade de mercado. Não fazer intervenções urbanas para empresas, mas criar um novo tipo de comunicação. Uma comunicação que gerasse valor para as pessoas e para as marcas.”

Neste ponto a iniciativa vinha sendo convidada para dar palestra por todo país. Essa ressonância com o público chegou até o mundo empresarial e a Shoot the Shit entrou em uma nova fase. Transformou-se em um negócio propriamente dito, capitaneado por Gabriel Gomes, Luciano Braga e Artur Scartazzini, definindo-se como um estúdio criativo de comunicação para projetos de impacto social. Embora o serviço se assemelhe de certa forma ao de uma agencia de comunicação, Gabriel garante que a Shoot The Shit sempre buscou desenhar um modelo que derive destes dogmas do segmento.

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Projeto com a Red Bull

Deu certo e uma das primeiras empresas a ver o potencial deste propósito de trabalho foi a irreverente Red Bull, que buscou a STS justamente por não se tratar de agência normal, acreditando que o time não trataria o projeto como apenas mais um canal de comunicação da marca.  Para Gabriel, isso demonstra uma fragmentação do mercado de comunicação, onde se começa a contratar serviços mais especializados.

“A diferença é que a gente tenta trabalhar em cima de pilares diferentes, que são: colaboração, transparência, sensibilidade e abertura. Todos os projetos têm que respeitar ao menos um desses pilares. Se nenhuma parte do projeto estiver tocando nesses 4 pilares, tem alguma coisa errada e não está alinhada com a gente, qualquer outra pessoa ou empresa pode fazer.”

A empresa agora busca um crescimento sustentável dentro de suas ideologias. Para colocar esse plano em prática a equipe decidiu olhar para dentro e no final de 2015 fez uma imersão de uma semana, na qual reviu e analisou os principais processos do negócio – prospecção, criação e gestão – e como resultado optou por adaptar algumas metodologias, de acordo com os principais ideais da empresa.

Um dos objetivos para 2016 é triplicar o lucro da empresa e ao que tudo indica a Shoot The Shit não irá alcançá-lo (por muito pouco, como comenta Gabriel), porém alguns passos importante foram dados e neste ano o núcleo de pessoas que trabalham na STS aumentou, tornando o time ainda mais afinado.

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Projeto “A Natureza Recarrega”

Mas o que isso quer dizer? Gabriel entende que a equipe é um diferencial do negócio, pois os sócios não vêem o time simplesmente como pessoas que têm empregos na STS, mas são pessoas que estão ganhando bem, trabalhando bem e confiando que a empresa é sólida, que ‘não vai ter crise’. Por isso todos os passos desse crescimento são bem pensados, com planejamento, método e processo.

“A gente tenta ser o mais fiel possível. O meu cargo é Guardião do Propósito, a pessoa que vai sempre lembrar a razão pela qual a gente faz o que faz. Entendemos que é muito fácil, quando se começa a fazer dinheiro, pensar que tem que pagar as contas, buscar resultado, e a gente prefere se manter enxuto para solidificar nosso núcleo e nosso propósito.”

No meio de 2016, a STS entrou em mais uma fase de sua história, mudando seu modelo e buscando relações de clientes fixos. Os processos de criação e os pilares da empresa continuam os mesmos, mas agora com adaptações em seu modelo de negócio. Gabriel explica que este modelo tem suas vantagens e suas desvantagens, e ele estará em eterna ‘fase de análise’, para sempre oferecer ao mercado o que faz sentindo dentro dos valores da empresa.

“Porque faz sentido, é uma forma eficiente de gerir um negócio. E isso é muito paradoxal na indústria criativa, porque a gente vê a industrialização da criatividade.”

Fica claro que o maior desafio para a STS, hoje, é crescer sem cair no lugar comum de todas as ‘agências convencionais’ e o gestor evidencia que ainda não tem resposta para todas as facetas desse desafio.

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Projeto “Porto Alegre precisa de mais”

“A gente tenta focar no que a gente tem de bom, nossa potência. Os 3 clientes que temos aqui, viramos a agência deles, mas quando eles aceitaram o contrato com a gente ele aceitaram que a comunicação deles será diferente, seguirá também nossos preceitos. A gente quer olhar para o que a marca tem de mais importante, para nós e para eles. Tem essa questão de olhar para marca, entender a potência dela e como ela se cruza com nossos valores.”

Um do preceitos que a STS não quer esquecer é o valor dos projetos paralelos, que são bastante incentivados dentro da empresa. Hoje, a empresa trabalha com o Innovation Timeoff, um conceito usado por empresas como a Google e a 3M onde os colaboradores podem dedicar parte de seu horário de trabalho para projetos paralelos que entrem nos parâmetros dos valores da empresa. Essa é uma das metodologias que a Shoot The Shit emprega no seu dia a dia além de várias outras, desde as mais modernas como Art of Hosting, Dragon Dreaming e Sistema B, até as mais tradicionais como dinâmicas de feedback de 15 em 15 dias.

“ Qualquer pessoa que queira fazer, tem espaço para isso, pode usar os recursos da empresa, a inteligência da galera, etc. e já aconteceram projetos bem legais. O Hack The City é meu projeto paralelo dentro da Shoot The Shit.  Então é um lugar que tem espaço, e isso faz parte da ideia de gestão horizontal. A gente quer que as pessoas ali tenham autonomia pra executar seus próprios negócios e projetos, e intra-empreender sem ter que pensar em sair.”

O gestor reforça ainda que mesmo sendo uma empresa que busque conceitos e ideias inovadoras, tem muito dos processos tradicionais que são válidos para a Shoot The Shit, pois de acordo com ele “não é a toa que é tradicional, nota-se que funciona”.

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Projeto “Porto Alegre, paraíso do golfe”

Na visão de Gabriel, o que faz uma empresa relevante é ser consciente de seu papel na sociedade. Ele acredita que o público está cada vez mais engajado e demanda maior engajamento, transparência e consciência das empresas com quem se relaciona.

“Para mim a relevância está junto com o sentido de importância, e importar é levar pra dentro. Então se é relevante pra mim é porque eu carrego dentro de mim. E a gente não vê muito as pessoas carregarem empresas dentro delas, mas tem aí um caminho de construção de relacionamentos das empresas com as pessoas, onde aquilo que as empresas fazem, social ou não, tem que ser importante para as pessoas.”

 

Outro ponto interessante é a visão clara que Gabriel tem sobre o segmento do próprio negócio. Para ele em breve, não se usará mais expressões como ‘marketing social’, ‘empreendedorismo social’, ‘negócios sociais’, pois todas as empresas e negócios serão (e de alguma forma já são) sociais. Para ele o mundo está em um momento reflexivo, onde as organizações estão repensando o lugar que as empresas ocupam na sociedade e fica claro que a Shoot The Shit já faz parte desta evolução.

“Eu acho que esse repensar vai fazer com que criar ambientes de trabalho melhor, entender que a empresa tem função na comunidade, entender que ela tem que entregar valor, entender que tem que rever processo de distribuição, cadeia de produção, tudo isso, vai fazer com que os negócios sejam ainda mais sociais.”

 

O Shoot The Shit atua em Porto Alegre e no Rio de Janeiro
Para mais informações, acesse o site.

SOBRE O “ENTREVISTAS QUE INSPIRAM”

Somos inquietos e apaixonados por informações e conteúdo que , além de nos estimular,  sirvam de referência para o nosso trabalho. É nesse contexto que o projeto  ‘Entrevistas que Inspiram’ nasce, dando luz a empresas, profissionais e projetos de relevância e que merecem destaque.

Neste espaço de entrevistas, os protagonistas são profissionais que servem como interlocutores das empresas que atendem ao propósito do projeto. Para selecionar as empresas participantes nosso time busca negócios relevantes e pertinentes ao mercado. O tamanho não importa, mas sim o conceito.

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